Os dois ponteiros se cruzam e batem exatamente meia-noite. Chovia lá fora, chovia aqui dentro, chuva de desejo incessante e medroso. Desejo que brilhava feito a lua nas noites mais geladas de inverno. Logo consigo enxergar, em um beco nos meus pensamentos, lacunas em branco deixadas em um canto bom da memória, é disso que tenho receio. E eu me encolho nas quinas de parede, tentando passar despercebida pelas estradas que varrem as sensações, que entopem minhas veias. Tento esquecer um pouco o que rodeia-me aqui dentro. Converso algumas horas com qualquer pessoa, sobre assuntos quase incompreendíveis, coisas que quando solto nos seus ouvidos ficam tão simples e fáceis de serem desvendados… Mas para minha infelicidade, não estás sempre ao meu lado. E no final dessas conversas banais, com pessoas extremamente desmerecidas das minhas sensações ao seu respeito, só me sinto desgastada, pesada, incompatível. Literalmente incompatível.
Decido desabafar comigo mesma: e por que eu carrego essa necessidade absurda de te ouvir um pouco? De saber dos teus anseios antes dos meus, das tuas angustias desvairadas e tenebrosas que eu tento, contudo não consigo compreender? E tudo que eu posso fazer para te confortar destas tuas dores, é sossegar um pouco no teu peito enquanto o dia passa sem me dar conta de que o sol já se pôs. Buscar tua mão nas inquietações de uma tarde qualquer, pois desejo - quase suplico - esquecer que lá fora é frio demais, seco demais, espaçoso demais para você… e talvez até pra mim.
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